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Tradições: Em Mouriscas os jovens ainda cantam «os Reis» e não as janeiras (c/Áudio)

5/01/2024 às 22:18

“Senhora rica senhora… viemos dar a boa nova para o ano que se segue…” ou então “Manuel mais Maria foram ambos a Belém para ouvir cantar os reis…” são duas das muitas formas como se começa a cantilena dos Reis em Mouriscas.

Anos fora, e noutros tempos de mais juventude, formavam-se muitos grupos informais para, na noite de 5 para 6 de janeiro, andar porta a porta a cantar os Reis. As quadras são todas de chamamento aos donos da casa, explicação do que se anda a fazer, dar as boas-vindas ao novo ano e depois “pedir a lembrança que a senhora (dona da casa) aqui lhe dá.” Depois silenciavam-se e esperavam que a dona da casa viesse à porta da rua para dar umas moedas que entravam para a bolsa presa no pulso do “tesoureiro” do grupo ou então um enchido diretamente do fumeiro, fosse chouriço, morcela ou farinheira. Já do homem da casa, vinha o convite para um copo de vinho ou de aguardente, é que em janeiro, por norma, as noites são bem geladas.

As décadas de 60, 70 e 80 tinham dezenas de grupos que se juntavam e andavam de porta em porta. Não se cantavam as janeiras, nem os grupos pertenciam a associações. E os instrumentos eram os que cada um sabia tocar ou tinha à mão. Os ferrinhos, o cântaro, o reco-reco e a cana-rachada eram uma presença que depois podia ter uma concertina ou uma viola. E aqui e acolá talvez o clarinete daquele jovem que andava na banda filarmónica.

Vieram os anos 90 e depois o novo século e as novas opções dos jovens, a perda de população das aldeias foi fazendo rarear os grupos de cantadores dos Reis, pelo menos na freguesia de Mouriscas.

Este ano, até às 22 horas, alguns jovens recrearam este movimento do cantar dos Reis. Em trios ou quartetos, ou grupos maiores lá vão andando de porta em porta. Hoje, já com recurso a automóveis ou carrinhas de 9 lugares porque a aldeia é dispersa e o povoado habitado é menor.

Em casa, o registo na primeira pessoa do primeiro grupo a cantar…

 

Depois da lembrança dada para a bolsa, a saída em modo de agradecimento e a “promessa” de “para o ano cá voltaremos outra vez.”

 

O grupo vai saindo a dizer que não querem deixar morrer a tradição, ou uma das tradições de uma das aldeias com mais ruralidade de Abrantes.

Poucos minutos depois novo grupo, desta vez um trio, mas também com vozes femininas, porque não são apenas os homens a cantar. E repete-se o modelo da cantiga a saudar o novo ano e o pedido da lembrança.

 

Após dada a lembrança, lá vem o agradecimento e a promessa de regressaram em 2025.

 

Os muitos grupos que existiam tinham em pensamento reviver as tradições. Tentavam cantar o melhor possível, mas como não era o Festival da Canção todos tinham o seu lugar. Mesmo os mais desafinados, e acreditem que os havia. Mas o convívio era o mais importante.

Noite feita cada um regressava às suas casas e a tradição estava cumprida.

Ah, pergunta o leitor, então o dinheiro das lembranças? Ou os enchidos?

Bom, na altura era mesmo para uma semana depois se poder fazer uma bela patuscada. Hoje será mais ou menos a mesma coisa, porque como dizem estes cantadores de Reis “na noite da véspera do dia de Reis há que saudar o novo ano, de porta em porta, a manter viva a tradição."

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