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Mouriscas: Oliveira do Mouchão registada em livro e quadro e a Espartaria em documentário (C/ÁUDIO)

29/10/2022 às 13:53

A SIFAMECA, em Mouriscas, foi transformada para receber a apresentação do documentário “Esparteiros, A Arte de Entrelaçar”, do livro “Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo”, e da pintura a azeite da Oliveira mais antiga da Península Ibérica.

Esta apresentação, organizada pelo Município de Abrantes, vem atrasada porque a pandemia a isso obrigou, mas o lançamento tinha de ser feito e tinha de acontecer no local onde a espartaria ainda é a vida de uma fábrica.

A nave da SIFAMECA foi arrumada para criar a plateia para os convidados, mas manteve a maquinaria, matéria-prima e produto acabado em redor da cerimónia para que os convidados pudessem apreciar como é trabalhado o cairo. Sim, porque o esparto, comprado em Espanha ou Marrocos, deixou de ser a matéria-prima na década de 60 e foi substituído por corda de cairo, importado da Índia.

 

O Livro

Francisco Lopes, autor do livro “Oliveira do Mouchão, Monumento Vivo”, começou por revelar a “escolha de Paulo Alves para fazer este trabalho. O Paulo faz ilustração científica.”

Depois deixou algumas informações para que a plateia pudesse perceber que para além da sua formação tem uma paixão, de anos, pelas árvores. “As árvores são a base da vida na terra e tenho uma grande paixão pelas árvores”, disse acrescentado que a Oliveira do Mouchão é, só por si, com 3350 anos um monumento muito mais importante do que qualquer outro monumento construído. E muito mais antiga. E há, de acordo com Francisco Lopes, uma outra abordagem, é que na história e ao longo dos tempos podemos olhar para a vida em que os animais mudam consoante as necessidades de caça, ou do clima, ou para procurarem melhores locais de vida. As árvores ficam e não mudam. E resistem ao passar dos anos, às intempéries e por aí fora.

Francisco Lopes

O autor do livro é do Pego, mas revelou o amor pelas Mouriscas: “Eu amo as Mouriscas, vinha para aqui quando era criança. Os meus pais vinham para a agricultura e eu vinha com eles, passávamos o rio na Barca do Pego e andava por aqui todos os dias”.

Francisco Lopes evocou a Oliveira do Mouchão como património que pode ser ligado a outro que existe aqui à volta. Património construído, como a fábrica de capachos [SIFAMECA]. O canal de Alfanzira, no Tejo. A Anta do Rio Frio, que sendo concelho de Mação agora, outrora era desta região que não tinha divisões administrativas ou territoriais. As azenhas das ribeiras. A Senhora da Guia, em Concavada. “Foram estas as razões que me levaram a este livro”, disse o autor.

 

O Quadro

Há um livro, mas há também uma tela, um quadro pintado por Massimo Esposito que mostra a Oliveira do Mouchão na sua plenitude. A árvore frondosa e imponente, com um tronco que releva muita vida, muitos anos, e de onde escorre muito azeite. Foi desta forma que o pintor italiano, radicado em Abrantes há 26 anos, começou este projeto que a Câmara de Abrantes lhe propôs: pintura de várias árvores com azeite. A pandemia veio e bloqueou tudo, mas este está feito e pode agora ser adquirido, em cópia serigrafada.

 

Massimo Esposito

Massimo Esposito disse que apurou a técnica de pintura em azeite há dez anos. E confirmou que foram precisas muitas horas para pintar. “Utilizei o azeite com pigmentos. Cada folha, e são muitas, tem várias tonalidades, por isso foi um trabalho de muitas horas”, disse o pintor que revelou, quando fez a pintura, tentou fazer as contas a quantos quilos de azeitona terá produzido esta árvore. “Tinha que mostrar a grande generosidade (através do azeite que escorre do tronco) desta árvore. Demorou tempo, mas foi um trabalho muito agradável.”

 

O Filme

À parte da Oliveira do Mouchão, mas sempre com ligação ao azeite, ou à sua extração, a SIFAMECA resultou, na década de 60, de uma união de grande parte das oficinas que existiam na aldeia para produção de ceiras e capachos, através do esparto.

A SIFAMECA chegou a ter 70 trabalhadores e uma produção de 100 mil capachos por ano, para além de muitas carpetes. Os tempos mudaram, as tecnologias também e a arte de entrelaçar cordas de cairo (ou nylon) tem hoje três trabalhadores. E corre o risco de se perder.

Foi nesse sentido que o programa Tradições, da Fundação EDP, apoiou em 2018 um conjunto de trabalhos no sentido de guardar as memórias da espartaria. Primeiro com um livro e agora com um documentário realizado por Miguel Dinis. E foi o próprio que agradeceu a possibilidade de realizar um documento que fica para todo o sempre a mostrar esta arte de entrelaçar.

Miguel Dinis

Miguel Dinis explicou que conhecia os capachos, como produto da região, mas com contacto que teve com a produção foi quando começou a preparar o documentário.

“Os verdadeiros protagonistas são aqueles que aparecem no documentário, as pessoas que fazem parte deste projeto”, disse o realizador acrescentando que o Evaristo Valente, a Maria Albertina, o Raul Grilo ou o Armando Ferreira, contaram na primeira pessoa as histórias que vão ficar na história desde documentário.

“Há no concelho mais profissões em risco real de desapareceram, e nunca é demais fazer com que isso não aconteça”, realçou Miguel Dinis que assinou o seu primeiro documentário.

Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, evocou o trabalho extraordinário desenvolvido através de uma parceria com a Fundação EDP.

Depois deixou a nota de que esta apresentação tem dois anos de atraso, mas que por causa da pandemia, não foi possível fazer este trabalho.

O autarca vincou que “continuamos a preservar e a reforçar este sentido da nossa identidade”, tendo deixado anda uma palavra para a SIFAMECA, através do tenente-coronel Abílio, de saudação pelo esforço que faz a manter este trabalho, ou seja, a arte de entrelaçar o cairo e, com isso, fazer os capachos, os tapetes e carpetes.

No final, porque se falou de azeite, oliveiras e ruralidade, foi feita uma prova de azeite novo, acabado de sair do lagar, com azeitonas também da safra deste ano e não faltaram as famosas passas fritas das Mouriscas.

Galeria de Imagens

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